Fogão à lenha

Coluna de Ricardo Rodrigues originalmente publicada no site do Jornal Hoje em Dia.


Embora a grande maioria dos mineiros tenha suas raízes na roça ou no campo, poucos reparam, com atenção, na estrutura de um fogão a lenha. Em primeiro lugar é importante observar que as chapas superiores [do fogão] sempre ficam fechadas, mas podem ser removidas quando colocamos uma panela sobre o fogo. Em uma das extremidades são depositadas as lenhas, queimadas para gerar o calor e cozinhar o alimento.

Mas engana-se quem acha que a lenha do fogão é a parte mais importante desse maquinário tão emblemático de nossa gastronomia. Existe outra peça ainda mais fundamental: o regulador. Normalmente localizado na saída da chaminé, ele tem a função de regular o calor absorvido pelas panelas. Quando está aberto libera oxigênio do fogo para a chaminé, impossibilitando, assim, que o alimento não queime.

Fazendo uma paráfrase com tudo que estamos vivendo nestes tempos sombrios de pandemia, posso dizer seguramente que no último ano muitos entupiram seus fogões com bastante lenha, sem sequer saber se elas, ao menos, seriam usadas. Movidos por interesses próprios, que esbarram em vaidades, questões financeiras, político-ideológicas e egocentrismo exacerbado, essas pessoas acreditaram apenas que o importante é estarem abastecidas. Mas aí pergunto: abastecido para quem, para qual finalidade?

O resultado dessa incoerência vem com o falecimento de muitas empresas, o término de relações familiares e o completo naufrágio. É óbvio que não quero culpar unicamente as pessoas por um eventual fracasso, já que a crise sanitária pela qual passamos, por si só, já é uma fumaça destruidora, capaz de sufocar e exterminar sem dó nem piedade.

Porém, não posso deixar de enfatizar a importância de priorizarmos valores e posturas hoje e sempre: mais importante do que estocar as lenhas do fogão e depois não saber como usá-las, é aumentar o regulador para que o calor nas trempes diminua a ponto de não queimar os pratos, principalmente nos momentos em que é preciso desacelerar. Desse modo não seremos sufocados pelo excesso de fumaça.

Quando você entende a importância do regulador não só nos seus negócios como também e, principalmente, na sua vida, aprende o quão essencial é respirar, permitir que o oxigênio passe com maior facilidade até chegar à chaminé, sem esquentar as chapas excessivamente.

Se o volume de lenhas queimadas não é o que você gostaria, encare essa redução como uma situação transitória, passageira. Regule-se. É melhor operar com menos potência hoje do que cometer o equívoco do autoextermínio.

Você tem conseguido manejar, com eficácia, seu fogão à lenha? Pense nisso.



Ricardo Rodrigues – Conselheiro Consultivo ABRASEL-MG e Coordenador da Frente da Gastronomia Mineira

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