Números que sufocam

Coluna de Ricardo Rodrigues originalmente publicada no site do Jornal Hoje em Dia.


Os fechamentos impostos por estados e municípios em fevereiro e março emparedaram os bares e restaurantes. De um lado, o faturamento caiu ou até mesmo zerou. De outro, as dívidas acumuladas em 2020 têm de ser pagas. Com isso, a esmagadora maioria se vê em situação crítica, sem ter como honrar dívidas e com enorme problema até mesmo para pagar funcionários. É o que aponta a mais recente pesquisa da ABRASEL, realizada entre os dias 1º e 5 de abril, com mais de 2 mil respostas de empresários do setor de alimentação fora do lar em todo o Brasil.

Segundo o levantamento, 91% dos estabelecimentos confirmaram dificuldade de quitar os salários neste mês, sendo que 76% deste total já tiveram dificuldades para pagar também a folha de março. Além disso, 73% precisaram demitir empregados nos três primeiros meses do ano.

Todos esses números são resultado direto do faturamento baixo (82% trabalharam no prejuízo em março) e do alto endividamento: 76% dos respondentes têm algum tipo de pagamento em atraso, principalmente impostos, aluguéis e fornecedores – 70% destes estão com parcelas do Simples Nacional vencidas.

Em Belo Horizonte o cenário é ainda pior por causa da proibição do take-away (serviço de retirada de alimentos). Além de ser uma alternativa para alimentar a população, principalmente aqueles que não têm familiaridade com plataformas de delivery, a modalidade de vendas garantia o emprego de muitos trabalhadores do setor. Sem dúvida é mais um prejuízo que colhemos desde o primeiro fechamento da cidade, em março de 2020, quando todo esse pesadelo começou.

Na mesma medida em que os números da recessão se acumulam e sufocam, o salvamento não aparece. Estamos há mais de dois meses na espera de uma nova Medida Provisória dos salários, que permita a suspensão de contratos ou redução de jornada de trabalho. Em janeiro nós já alertamos o governo federal de que a situação ficaria crítica. Sem isso, mesmo caminhando para a reabertura, muitos estabelecimentos não irão aguentar e, infelizmente, sucumbir. As ajudas em alguns estados e municípios foram bem-vindas, mas insuficientes.

A Abrasel estima que a demora para reedição da medida, contribuiu fortemente para o encerramento definitivo de mais de 35 mil empresas do setor alimentação fora do lar, de dezembro até o momento, o que teria impactado cerca de 100 mil postos de trabalho.

Estamos todos nos sentindo como vítimas de uma enorme jiboia: a cada vez que tentamos respirar, o aperto vem mais forte e o fôlego diminui. Até quando?


Ricardo Rodrigues – Conselheiro Consultivo ABRASEL-MG e Coordenador da Frente da Gastronomia Mineira

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