Vermelho: a cor do desespero

Conteúdo originalmente publicado no jornal Hoje Em Dia



Alerta spoiler: o texto de hoje contem fortes doses de ironia.

O ano realmente está maravilhoso!! O Produto Interno Bruto nunca cresceu tanto como antes; as empresas, principalmente as pequenas, quintuplicaram o faturamento; o desemprego caiu para os índices mais baixos da nossa história; e a Covid-19 não passou de um pesadelo simultâneo de bilhões de pessoas do qual fomos subitamente acordados após o despertar de um sol reluzente.

Como nem tudo são flores, uma erva daninha, infelizmente, apareceu em nosso caminho: na última segunda-feira (30) a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) anunciou uma cobrança extra na tarifa de energia elétrica. De acordo com a reguladora, será acionada a bandeira vermelha patamar 2 durante todo este mês de dezembro, o que representa R$ 6,24 a mais a cada 100 kWh consumidos. Vale lembrar que em maio, o órgão havia decidido manter a bandeira verde (sem cobrança extra) acionada até 31 de dezembro, ou seja, a palavra do governo e uma nota de R$ 3 têm o mesmo valor.

Vamos agora à realidade que, infelizmente, não é a que escrevi no início deste artigo. Uma decisão como essa da Aneel é totalmente desprovida de empatia com toda a sociedade, tanto com as pessoas físicas (muitas delas perderam seus empregos na pandemia e sequer possuem recursos para se manterem) quanto as jurídicas. Neste segundo grupo posso dizer com total certeza que empresários de diversos segmentos estão lutando dia a dia neste horrendo 2020 para manterem seus negócios abertos sem mais prejuízos, porque o lucro já não é mais possível. Mesmo aqueles que se equilibram e, aos trancos e barrancos, conseguem criar um fluxo de caixa ou planejamento financeiro à curto prazo, não conseguirão suportar esse reajuste soturno da energia elétrica. Aumento esse, diga-se de passagem, que vem em um péssimo momento, justo quando somos, novamente, tomados pelas incertezas de um possível novo fechamento do comércio devido ao crescimento dos casos de coronavírus em todo o Brasil.

Essa notícia do encarecimento das contas de luz é tão ‘chocha, capenga, manca, anêmica, frágil e inconsistente’, que desperta em mim a seguinte dúvida: por que motivos o finado horário de verão foi extinto? A sua utilidade não era justamente aproveitar a duração extra da luminosidade natural, comum nos últimos meses do ano, sobretudo no final do dia, para minimizar a sobrecarga de energia? Será que ele realmente não é necessário?

Enquanto o nosso governo não consegue pensar nessa lógica simples, a únicas certezas que tenho é que chegamos ao final do ano sendo obrigados a pagar energia elétrica na bandeira vermelha e com o terrível receio de que os indicadores da Covid-19 saiam do amarelo e também façam morada nessa cor que, agora, em nada remete ao amor e à paixão. Oremos!



Ricardo Rodrigues – Conselheiro Consultivo ABRASEL-MG e Coordenador da Frente da Gastronomia Mineira

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